O cotidiano e a repetição: como encontrar novidade nas coisas de sempre

Existe uma ideia bastante difundida de que precisamos sair da rotina para viver melhor.

Viajar. Conhecer lugares novos. Fazer coisas diferentes. Mudar os hábitos. Experimentar. Romper com a repetição.

Tudo isso pode ter seu valor. Mas existe um problema quando começamos a acreditar que a vida cotidiana é apenas o intervalo entre acontecimentos realmente importantes.

Se a novidade é sempre colocada como aquilo que dá sentido à experiência, o cotidiano pode parecer uma espécie de espera.

Esperamos a viagem.

O fim de semana.

As férias.

O próximo encontro.

O próximo projeto.

O próximo acontecimento.

Enquanto isso, repetimos os mesmos caminhos, frequentamos os mesmos lugares, fazemos o mesmo café, encontramos as mesmas pessoas e atravessamos dias que parecem semelhantes.

Mas talvez a repetição não seja necessariamente o contrário da novidade.

Talvez seja justamente ela que nos permita perceber coisas que, na pressa por experimentar sempre algo diferente, não teríamos tempo de perceber.

Para quem procura um Psicólogo em Vitória, ES, essa também pode ser uma questão interessante para a psicoterapia: o que acontece quando deixamos de tratar o cotidiano como algo que precisa ser superado e começamos a prestar atenção nele?

O que existe no cotidiano?

O cotidiano é formado por coisas que, justamente por acontecerem muitas vezes, tendem a passar despercebidas.

O café pela manhã.

O caminho até o trabalho.

O barulho da rua.

A luz entrando pela janela.

A conversa com alguém próximo.

O banho.

A ida ao mercado.

O mesmo banco da praça.

A mesma música que volta a tocar.

O mesmo restaurante.

O mesmo exercício.

A mesma rua.

A repetição produz familiaridade. E a familiaridade pode fazer com que deixemos de prestar atenção.

Depois de passar muitas vezes por uma determinada rua, provavelmente deixamos de perceber algumas de suas características. Não porque elas desapareceram, mas porque nosso olhar se acostumou a elas.

Isso acontece também com as relações.

Conhecemos determinada pessoa há anos e começamos a acreditar que já sabemos quem ela é. Conhecemos seus hábitos, suas frases, suas reações.

Mas ninguém permanece exatamente igual.

A pessoa muda.

Nós mudamos.

A relação muda.

O problema talvez esteja menos na repetição em si e mais na maneira como nos relacionamos com aquilo que se repete.

Por que a repetição pode ser interessante?

Repetir não significa necessariamente fazer exatamente a mesma coisa da mesma maneira.

Um músico toca a mesma música diversas vezes e percebe diferenças.

Um escritor relê uma frase e encontra outro sentido.

Uma pessoa caminha pela mesma rua durante anos e, em determinado dia, percebe uma árvore que sempre esteve ali.

Uma criança consegue brincar muitas vezes com o mesmo objeto sem precisar transformá-lo em outra coisa.

A repetição pode produzir familiaridade suficiente para que a atenção se desloque.

Na primeira vez, estamos preocupados em entender o que acontece.

Depois de algum tempo, podemos começar a perceber detalhes.

É como olhar novamente para uma pintura.

Na primeira observação, vemos a imagem.

Na segunda, percebemos uma cor.

Depois, uma sombra.

Mais tarde, talvez uma relação entre dois elementos que não havíamos percebido.

A obra não necessariamente mudou.

O olhar mudou.

Algo semelhante pode acontecer no cotidiano.

Quando deixamos de exigir que cada experiência seja nova, podemos começar a experimentar de outra maneira aquilo que já conhecemos.

Onde podemos encontrar novidade?

Não é necessário viajar para encontrar novidade.

Ela pode estar em uma rua conhecida.

No caminho para o trabalho.

Em uma praça frequentada há anos.

No próprio quarto.

Em uma conversa que já aconteceu muitas vezes.

A questão é aprender a perceber.

Isso não significa transformar cada momento em uma experiência extraordinária. Na verdade, pode ser justamente o contrário.

A novidade pode ser muito pequena.

Hoje, a luz está diferente.

A árvore está florescendo.

O vendedor da esquina mudou a disposição das coisas.

A pessoa com quem você convive parece mais silenciosa.

O café ficou diferente.

Você percebeu um ruído que nunca havia notado.

Seu próprio corpo está diferente.

Pequenas diferenças aparecem constantemente.

Mas, para percebê-las, precisamos de algum tempo.

Quando a repetição se torna um problema?

Nem toda repetição é interessante.

Existem repetições que produzem segurança, continuidade e familiaridade. Existem outras que podem produzir sofrimento.

Uma rotina pode ajudar a organizar o cotidiano, mas também pode se tornar rígida.

Uma relação pode oferecer estabilidade, mas também pode se transformar em repetição de conflitos.

Um comportamento pode produzir conforto durante algum tempo e, depois, limitar possibilidades.

Por isso, não se trata de defender a repetição como algo necessariamente positivo.

A questão é perceber que repetir e estar parado não são exatamente a mesma coisa.

Podemos repetir uma atividade e continuar mudando.

Também podemos viver experiências diferentes constantemente e permanecer presos aos mesmos padrões.

Uma pessoa pode viajar para dez lugares diferentes e continuar repetindo a mesma maneira de se relacionar.

Pode mudar de emprego várias vezes e continuar vivendo o mesmo conflito.

Pode conhecer muitas pessoas e continuar sentindo a mesma solidão.

A novidade externa não garante transformação interna.

Quando observar o cotidiano?

Talvez seja justamente nos momentos em que sentimos que “nada acontece”.

A sensação de que os dias são todos iguais pode ser um sinal para interromper por alguns instantes a pressa e observar o que realmente está acontecendo.

Uma pergunta simples pode ajudar:

O que existe neste dia que eu normalmente não percebo?

Não é preciso encontrar uma resposta grandiosa.

Pode ser alguma coisa muito pequena.

A maneira como o sol bate na parede.

O som de uma porta.

Uma conversa no ônibus.

Uma mudança no próprio humor.

A vontade de caminhar por outra rua.

Um pensamento que apareceu enquanto você fazia uma atividade repetitiva.

O cotidiano não precisa produzir grandes acontecimentos para ser vivido com atenção.

Quem participa da construção do cotidiano?

Existe uma parte do cotidiano que não escolhemos.

Precisamos trabalhar, pagar contas, cuidar de outras pessoas, cumprir compromissos e lidar com acontecimentos que não estavam previstos.

Mas também existe uma margem de escolha.

Escolhemos, dentro de determinadas condições, como organizar alguns horários, que caminhos percorrer, quais relações cultivar, onde colocar nossa atenção e quais atividades preservar.

Essa margem não é igual para todas as pessoas. Condições econômicas, profissionais, familiares e sociais interferem profundamente nas possibilidades de organização da vida.

Por isso, não faz sentido transformar o cotidiano em mais uma questão de desempenho individual.

Não se trata de dizer que basta “aprender a aproveitar o presente”.

Existem situações em que o cotidiano é realmente pesado.

Existem pessoas submetidas a jornadas exaustivas, precariedade, isolamento, dificuldades financeiras, conflitos familiares ou outras condições que restringem suas possibilidades.

Ainda assim, mesmo dentro de limites concretos, pode ser possível identificar pequenos espaços de escolha.

E esses pequenos espaços podem importar.

Como transformar a repetição em experiência?

Uma possibilidade é fazer uma coisa conhecida com uma atenção um pouco diferente.

Tomar café sem olhar o celular.

Percorrer uma rua conhecida observando as fachadas.

Escutar uma música inteira sem fazer outra coisa simultaneamente.

Preparar uma refeição prestando atenção aos movimentos.

Sentar em um lugar habitual e observar as pessoas.

Fazer uma atividade manual.

Escrever algumas linhas sobre algo que aconteceu naquele dia.

Não são técnicas obrigatórias.

São experimentos.

O objetivo não é tornar a vida interessante à força.

É diminuir um pouco a distância entre estar fazendo alguma coisa e estar efetivamente presente nela.

Existe uma diferença entre repetir automaticamente e repetir percebendo.

A primeira forma pode produzir anestesia.

A segunda pode produzir intimidade.

O 5W2H aplicado ao cotidiano

O 5W2H pode parecer uma ferramenta distante da experiência cotidiana. Originalmente utilizado para estruturar ações e projetos, ele pode ser adaptado para uma experiência muito simples: escolher uma prática repetida e experimentar uma nova forma de estar nela.

O quê?

Escolha uma atividade cotidiana que já faça parte da sua rotina.

Pode ser caminhar, tomar café, cozinhar, escrever, ler, cuidar de plantas, ouvir música ou fazer o mesmo trajeto diariamente.

A ideia não é acrescentar uma obrigação à rotina.

É escolher algo que já acontece.

Por quê?

Porque a repetição pode ser uma oportunidade de perceber diferenças.

Em vez de buscar constantemente algo novo, podemos experimentar olhar novamente para aquilo que já conhecemos.

O objetivo pode ser simplesmente recuperar atenção e presença.

Onde?

No próprio cotidiano.

Em casa, na rua, no trabalho, no caminho para algum lugar ou em qualquer ambiente onde a atividade escolhida aconteça.

Não é necessário criar um cenário especial.

Quando?

Durante um período determinado.

Pode ser uma semana ou quinze dias.

Escolha um momento específico do dia para praticar uma atenção diferente.

A repetição é importante porque permite comparar experiências.

O que você percebeu hoje que não havia percebido ontem?

Quem?

Você.

Mas outras pessoas também podem participar.

Uma caminhada pode ser compartilhada. Uma conversa pode ganhar outro ritmo. Uma atividade pode ser feita com alguém que também esteja disposto a observar.

O cotidiano é individual, mas nunca é completamente solitário.

Como?

Diminuindo a velocidade.

Escolhendo uma atividade habitual e prestando atenção aos detalhes.

Em vez de tentar produzir uma experiência extraordinária, experimente perguntar: o que mudou?

Pode ter mudado o ambiente.

Pode ter mudado o corpo.

Pode ter mudado o humor.

Pode ter mudado sua relação com aquela atividade.

Ou talvez nada tenha mudado.

Isso também é uma informação.

Quanto?

Pouco.

A proposta não precisa exigir dinheiro nem grandes investimentos.

Pode exigir cinco, dez ou quinze minutos de atenção.

O principal investimento é tempo.

E talvez essa seja justamente uma das coisas mais difíceis de oferecer ao cotidiano: tempo suficiente para que alguma coisa possa aparecer.

O cotidiano e a psicologia

A psicologia frequentemente é procurada em momentos em que a vida parece ter perdido alguma coisa.

Pode ser o prazer.

A disposição.

A capacidade de se interessar.

A sensação de que os dias têm alguma diferença entre si.

Em alguns casos, essa experiência está relacionada a períodos de sofrimento, perdas, ansiedade, depressão, conflitos ou mudanças importantes.

Não seria adequado responder a isso simplesmente dizendo para a pessoa “aproveitar mais as pequenas coisas”.

Uma experiência de sofrimento não desaparece porque alguém decidiu observar o pôr do sol.

Mas o cotidiano pode ser um lugar importante de investigação.

O que se repete?

O que deixou de acontecer?

O que antes produzia interesse?

Que atividades foram abandonadas?

Quais relações permaneceram?

O que mudou na maneira de perceber o próprio dia?

Para quem procura um Psicólogo em Vitória, ES, a psicoterapia pode ser um espaço para investigar essas questões sem reduzir a experiência a uma fórmula.

Às vezes, o que parece ser apenas “tédio” pode estar relacionado a algo mais profundo.

Às vezes, o cotidiano realmente precisa mudar.

Em outras situações, talvez seja o olhar sobre ele que esteja pedindo uma mudança.

Quanto vale uma vida que não acontece apenas nos grandes momentos?

Existe uma pressão contemporânea para transformar a vida em uma sucessão de experiências.

Viajar mais.

Conhecer mais.

Produzir mais.

Consumir mais.

Registrar mais.

Fazer mais.

Essa lógica pode criar uma relação curiosa com o cotidiano: quanto mais desejamos experiências extraordinárias, menos interessante parece aquilo que se repete.

Mas uma vida é feita majoritariamente de repetição.

Dormimos.

Acordamos.

Comemos.

Trabalhamos.

Conversamos.

Voltamos para casa.

Encontramos pessoas.

Cuidamos de coisas.

Fazemos novamente.

O extraordinário é exceção.

A maior parte da existência acontece no ordinário.

Isso não significa que devemos romantizar a rotina ou aceitar qualquer condição de vida como ela está.

Significa reconhecer que talvez não seja possível — nem desejável — transformar todos os dias em acontecimentos memoráveis.

A vida também acontece naquilo que não será fotografado.

Na conversa que ninguém registra.

Na caminhada habitual.

Na refeição comum.

No livro relido.

Na música escutada pela décima vez.

Na pessoa que encontramos novamente.

No caminho que conhecemos.

Talvez seja justamente a repetição que permita que algumas dessas coisas adquiram profundidade.

Repetir não é permanecer igual

Existe uma diferença importante entre repetição e imobilidade.

Repetir pode ser uma maneira de aprofundar.

Um gesto repetido pode ganhar precisão.

Uma prática pode ganhar intimidade.

Uma relação pode ganhar novas camadas.

Um lugar pode revelar detalhes.

Uma atividade pode produzir sentidos diferentes em momentos diferentes da vida.

Nós também não somos os mesmos enquanto repetimos.

Essa é talvez a parte mais interessante.

A rua é a mesma, mas você não é exatamente o mesmo.

A música é a mesma, mas você a escuta em outro momento.

A pessoa é a mesma, mas a relação se transformou.

O livro é o mesmo, mas você chegou a ele depois de outras experiências.

A repetição não precisa ser um círculo fechado.

Pode ser uma espiral.

Voltamos a alguns lugares, gestos e perguntas, mas nunca exatamente do mesmo ponto.

O que pode haver no mesmo de sempre?

Talvez seja interessante experimentar essa pergunta durante alguns dias.

Não “o que há de novo para fazer?”, mas:

O que há de novo no que já faço?

A pergunta muda o movimento.

Em vez de abandonar imediatamente o conhecido em busca do desconhecido, podemos investigar aquilo que está diante de nós.

Isso não significa aceitar uma rotina que produz sofrimento.

Quando uma situação precisa mudar, mudar também pode ser uma forma de cuidado.

Mas nem toda repetição precisa ser rompida.

Algumas precisam apenas ser percebidas.

Talvez o cotidiano não seja uma versão menor da vida.

Talvez seja a própria vida acontecendo na maior parte do tempo.

E talvez uma das maneiras de torná-lo mais interessante não seja fazer cada vez mais coisas diferentes, mas permanecer tempo suficiente em algumas delas para descobrir que elas nunca foram exatamente iguais.