
“Ele precisava fazer terapia.”
“Ela precisava procurar um psicólogo.”
“Eu já falei mil vezes para ele se tratar.”
“Se ela fizesse terapia, talvez tudo fosse diferente.”
Essas frases aparecem com frequência nas relações familiares. Às vezes são ditas por preocupação genuína. Outras vezes, depois de uma discussão. Também podem surgir quando alguém está sofrendo diante do comportamento de outra pessoa e não sabe mais o que fazer.
Existe uma situação particularmente delicada: quando uma pessoa deseja intensamente que outra faça terapia.
Pode ser um marido falando da esposa, uma mãe falando do filho, um filho falando dos pais, um irmão falando da irmã. A pessoa observa determinado comportamento, identifica sofrimento e conclui que o outro precisa de ajuda psicológica.
Talvez esteja certa.
Mas existe uma pergunta anterior que merece ser feita:
“Por que eu preciso tanto que essa pessoa faça terapia?”
A pergunta não serve para desqualificar a preocupação. Serve para ampliar a compreensão da situação.
Porque, em muitos casos, quando desejamos que alguém mude, existe também alguma coisa em nós que está sofrendo com a permanência daquela pessoa exatamente como ela é.
O que significa querer que alguém faça terapia?
À primeira vista, parece um gesto de cuidado.
Se alguém que amamos está sofrendo, é natural desejar que procure ajuda. Quando percebemos ansiedade, tristeza, agressividade, isolamento, conflitos constantes ou comportamentos que parecem prejudiciais, podemos pensar que a psicoterapia seria importante.
E pode ser.
O problema aparece quando a terapia do outro começa a ser tratada como solução para um problema que pertence à relação.
“Se ele fizesse terapia, nosso casamento melhoraria.”
“Se minha mãe procurasse um psicólogo, ela entenderia como está me tratando.”
“Se meu filho fizesse terapia, ele deixaria de agir assim.”
Nessas situações, a expectativa deixa de ser apenas “gostaria que essa pessoa tivesse ajuda” e passa a ser “preciso que essa pessoa mude”.
São coisas diferentes.
Por que geralmente queremos que alguém próximo faça terapia?
Quanto mais próxima é uma relação, maior costuma ser o impacto que determinados comportamentos têm sobre nós.
É difícil observar alguém que amamos repetindo uma atitude que consideramos destrutiva.
Um familiar pode beber excessivamente, afastar-se das pessoas, viver em conflitos, não conseguir estabelecer limites, permanecer em uma relação que parece prejudicial ou apresentar comportamentos que deixam todos ao redor preocupados.
Quem está próximo também sofre.
Por isso, o desejo de que essa pessoa procure terapia pode nascer de uma tentativa de ajudar.
Mas pode nascer também de uma tentativa de recuperar algum controle.
Quando não conseguimos mudar determinada situação, procurar uma explicação pode ser uma forma de lidar com a impotência.
Pensamos:
“Se ele procurar ajuda, talvez finalmente mude.”
Só que a terapia não funciona como um mecanismo de transformação de terceiros.
Onde termina o cuidado e começa o controle?
Essa fronteira nem sempre é evidente.
Cuidar de alguém envolve reconhecer seu sofrimento e, quando possível, oferecer apoio.
Controlar envolve acreditar que sabemos qual mudança o outro precisa fazer e tentar conduzi-lo até ela.
A diferença pode parecer pequena, mas é fundamental.
“Eu me preocupo com você e, se quiser, posso ajudar a encontrar um psicólogo.”
É diferente de:
“Você precisa fazer terapia porque o problema é você.”
A primeira frase abre uma possibilidade.
A segunda transforma a terapia em uma acusação.
Isso pode produzir resistência.
Não porque a pessoa necessariamente não precise de ajuda, mas porque ninguém gosta de sentir que está sendo enviado para um tratamento para atender às expectativas de outra pessoa.
A terapia não pode ser feita no lugar de alguém
Existe um limite fundamental: ninguém pode fazer terapia por outra pessoa.
Podemos marcar a consulta, pesquisar profissionais, pagar as sessões e insistir.
Mas não podemos falar pelo outro durante o processo.
A psicoterapia depende, em algum grau, da participação de quem está sendo atendido.
Isso parece óbvio, mas nem sempre é na prática.
Familiares podem chegar ao consultório esperando que o psicólogo “conserte” alguém.
Esperam que o profissional faça a pessoa perceber que está errada, mudar um comportamento, terminar uma relação, abandonar determinado hábito ou passar a tratar a família de outra maneira.
Essa expectativa coloca sobre o psicólogo uma responsabilidade que não pertence a ele.
O terapeuta trabalha com a pessoa que está em atendimento.
Não com a versão dela que os familiares gostariam que existisse.
E se a pessoa realmente precisar de terapia?
Aqui existe uma questão importante.
O fato de a pessoa não querer fazer terapia não significa que ela esteja bem.
Ela pode estar sofrendo e não reconhecer isso.
Pode reconhecer, mas não desejar ajuda.
Pode ter medo.
Pode ter experiências ruins anteriores.
Pode acreditar que terapia não funciona.
Pode considerar que consegue resolver sozinha.
Ou pode simplesmente não querer.
A família pode expressar sua preocupação, oferecer possibilidades e estabelecer limites diante de comportamentos que afetam sua própria vida.
Mas existe uma diferença entre oferecer ajuda e tentar obrigar alguém a se transformar.
Em determinadas situações de risco ou emergência, evidentemente, podem existir medidas específicas previstas pela legislação e pelos serviços de saúde. Mas isso não deve ser confundido com a situação cotidiana em que um familiar simplesmente deseja que outro se comporte de maneira diferente.
Quando o problema do outro também se torna nosso problema
As relações familiares não são compartimentos isolados.
Quando alguém sofre, outras pessoas podem ser afetadas.
Uma mãe pode sofrer com as escolhas do filho adulto. Um filho pode sofrer com o comportamento de um pai. Um companheiro pode adoecer emocionalmente diante de conflitos constantes na relação.
Nesse sentido, dizer “o problema é dele” também pode ser uma simplificação.
O comportamento de uma pessoa pode afetar profundamente outra.
Mas isso não significa que a solução esteja necessariamente em fazer aquela pessoa mudar.
Às vezes, a pergunta mais produtiva é:
“O que eu posso fazer diante disso?”
Essa mudança de foco pode ser difícil.
É mais confortável imaginar que o outro precisa mudar do que reconhecer os limites da nossa influência.
“Ele precisa fazer terapia” pode esconder outra frase
Às vezes, por trás de “ele precisa fazer terapia”, existe algo como:
“Eu não aguento mais.”
“Não sei mais como conversar com ela.”
“Estou sofrendo com o comportamento dele.”
“Queria que ela percebesse o que está fazendo comigo.”
“Não sei como colocar limites.”
“Queria que nossa relação fosse diferente.”
Essas frases são importantes.
Talvez a pessoa que está pedindo terapia para o familiar também esteja precisando de um espaço para falar sobre aquilo que vive.
Isso não significa transformar automaticamente quem procura ajuda em responsável pelo problema.
Significa reconhecer que sofrimento relacional possui mais de um lado.
Um Psicólogo em Vitória, ES, por exemplo, pode receber uma pessoa que chega falando longamente sobre o comportamento do companheiro, dos pais ou dos filhos. Ao longo da conversa, talvez seja possível começar a investigar não apenas o que o outro faz, mas como aquela pessoa está vivendo aquela relação.
A terapia pode então deixar de ser uma tentativa de modificar alguém ausente e se tornar um espaço para compreender aquilo que está acontecendo com quem está presente.
O que fazer quando alguém não quer fazer terapia?
Talvez a primeira coisa seja abandonar a fantasia de convencimento perfeito.
É possível explicar, convidar, oferecer ajuda e compartilhar informações.
Mas não existe uma frase mágica que obrigará alguém a querer fazer terapia.
Insistir continuamente pode produzir o efeito contrário.
Em vez de aproximar a pessoa do cuidado, pode transformar a terapia em símbolo de crítica e cobrança.
Uma alternativa é falar a partir da própria experiência.
Em vez de:
“Você é muito agressivo e precisa de terapia.”
Pode ser mais produtivo dizer:
“Quando nossas conversas chegam a esse ponto, eu fico muito mal e não sei mais como lidar.”
A diferença está em não transformar o diagnóstico do outro no centro da conversa.
Você pode falar sobre o que observa e sobre o impacto que aquilo produz em você sem precisar ocupar o lugar de psicólogo da pessoa.
Quando a preocupação vira uma tentativa de diagnóstico
Outro problema frequente é o diagnóstico informal.
“Ele é narcisista.”
“Ela tem depressão.”
“Meu irmão é bipolar.”
“Meu pai é tóxico.”
As redes sociais ampliaram muito o vocabulário psicológico disponível para as pessoas. Isso pode ajudar na identificação de experiências, mas também pode produzir simplificações.
Uma característica isolada não permite concluir um diagnóstico.
E mesmo quando existe um diagnóstico profissional, ele não explica uma pessoa inteira.
Transformar alguém em uma etiqueta pode produzir uma falsa sensação de compreensão.
A pessoa deixa de ser alguém com uma história complexa e passa a ser vista apenas como “o depressivo”, “o narcisista”, “o ansioso” ou “o difícil da família”.
A psicoterapia deveria caminhar na direção oposta dessa redução.
Quem realmente precisa mudar?
Essa talvez seja a pergunta mais incômoda.
Quando desejamos que alguém faça terapia, podemos perguntar:
“O que exatamente eu espero que mude?”
A resposta pode revelar muito.
“Quero que ele pare de beber.”
“Quero que ela seja menos controladora.”
“Quero que meu filho me escute.”
“Quero que meu marido demonstre mais afeto.”
“Quero que minha mãe pare de interferir na minha vida.”
Esses desejos podem ser legítimos.
Mas são desejos sobre o comportamento de outra pessoa.
E não temos controle absoluto sobre o comportamento dos outros.
Podemos estabelecer limites.
Podemos comunicar nossas necessidades.
Podemos decidir permanecer ou não em determinadas relações.
Podemos buscar ajuda.
Mas não podemos garantir que o outro se transforme.
Como a terapia pode ajudar quem está sofrendo com o outro?
Existe uma possibilidade frequentemente esquecida: procurar terapia não apenas para “resolver o outro”, mas para compreender a própria posição dentro daquela relação.
Isso pode envolver perguntas como:
Por que essa situação me afeta dessa maneira?
O que tenho tentado fazer para mudar essa pessoa?
Quais limites consigo estabelecer?
O que estou aceitando que não gostaria de aceitar?
O que está sob meu controle?
O que não está?
Que tipo de relação quero construir?
Essas perguntas não servem para culpar quem sofre.
Servem para devolver alguma possibilidade de ação.
Quando concentramos toda a energia na mudança do outro, podemos ficar presos àquilo que não controlamos.
Quando começamos a olhar também para nossas próprias escolhas, talvez apareçam alternativas.
Quanto custa insistir para que o outro mude?
Existe um custo emocional na tentativa permanente de modificar alguém.
Discussões se repetem.
Conversas tornam-se cobranças.
Cada comportamento passa a ser interpretado como prova de que o outro “precisa de terapia”.
A relação pode se transformar em um ciclo de acusação e defesa.
“Você precisa de ajuda.”
“Você é quem precisa.”
“Eu só estou tentando ajudar.”
“Você está tentando me controlar.”
E assim por diante.
Nesse contexto, a terapia passa a ser utilizada como arma dentro da relação.
Isso é particularmente problemático.
Psicoterapia não deveria ser uma ameaça:
“Se você não mudar, vou mandar você para o psicólogo.”
Ela precisa ser uma possibilidade de cuidado.
Quando é possível oferecer ajuda sem invadir?
Uma forma mais cuidadosa de abordar o assunto é oferecer a possibilidade sem transformar a decisão em uma condição para a relação.
“Se algum dia você quiser conversar com um psicólogo, posso ajudar a procurar.”
Isso não resolve necessariamente o problema.
Mas respeita a autonomia.
Também é possível dizer:
“Estou preocupado com você.”
“Tenho percebido que você não está bem.”
“Se quiser ajuda para procurar atendimento, posso ajudar.”
A pessoa pode aceitar.
Pode recusar.
Pode dizer que não precisa.
Pode mudar de ideia depois.
O importante é reconhecer que oferecer ajuda e controlar o resultado são coisas diferentes.
O que a família pode fazer?
A família possui um papel importante, mas esse papel não é necessariamente convencer alguém a fazer terapia.
Pode escutar.
Pode demonstrar preocupação.
Pode estabelecer limites.
Pode evitar humilhações e diagnósticos improvisados.
Pode oferecer informações sobre serviços disponíveis.
Pode procurar ajuda para si mesma.
E pode reconhecer quando uma situação ultrapassa aquilo que consegue administrar sozinha.
Em alguns casos, inclusive, uma terapia familiar ou de casal pode fazer mais sentido do que esperar que apenas uma pessoa seja “consertada”.
Isso depende da demanda e da avaliação profissional.
Conclusão: talvez a pergunta não seja “como fazer o outro mudar?”
Quando queremos muito que alguém faça terapia, é possível que exista uma preocupação legítima.
Mas também pode existir sofrimento, frustração, impotência ou desejo de que determinada relação seja diferente.
Por isso, talvez valha a pena fazer uma pergunta antes de tentar convencer o outro:
“O que eu espero que aconteça se essa pessoa mudar?”
A resposta pode ser reveladora.
Talvez você queira que ela sofra menos.
Talvez queira recuperar uma relação.
Talvez esteja cansado.
Talvez queira deixar de ser tratado de determinada maneira.
Talvez queira que alguém finalmente reconheça o impacto que causa.
Tudo isso merece ser pensado.
A terapia pode ser procurada pela pessoa que está sofrendo, mas também pode ser um espaço para quem convive com alguém difícil, imprevisível, distante ou em sofrimento.
Não para aprender a controlar o outro.
Para compreender melhor a relação, reconhecer os próprios limites e descobrir o que é possível fazer diante daquilo que não podemos controlar.
Porque existe uma diferença importante entre querer que alguém faça terapia e precisar que alguém faça terapia para que nós consigamos ficar bem.
O primeiro pode ser cuidado.
O segundo talvez seja um pedido de ajuda que ainda não encontrou a pessoa certa para escutar.


